Author Archive for Alessandra Marcondes



10
maio
09

O Dia das Mães

Neste domingo, filhos mais velhos param de dar beliscões nos irmãos mais novos, enquanto os mais novos deixam de lado o hábito de dedurar o primogênito, só para prestigiar quem lhe deu a vida. Aquela moça bonita que, conforme você foi crescendo, virou ‘senhora de respeito’, que te envergonhou na frente de várias pretendendes, mas segurou a sua mão quando você precisou. Para a surpresa de todos, o dia das mães não nasceu em uma conspiração das coorporações capitalistas, loucas para alimentar o consumo nos pobres seres humanos. A comemoração tem origem nos Estados Unidos, no início do século XX, quando uma jovem chamada Anna Jarvis, deprimida pela morte recente de sua mãe, deu início a um movimento que instituía uma data em que todos os filhos prestigiariam suas mães, vivas ou mortas. A homenagem foi decretada oficial depois de certa resistência, primeiro nos EUA, e em seguida no mundo, sendo comemorada em diferentes dias do calendário conforme o país.

Prefiro não catalogar as mães com padrões de presentes divididos conforme seu signo, como fez a astróloga Eunice Ferrari, do Portal Terra: para ela, a mãe de sagitário não manifesta amor e merece uma viagem a Katmandu – região no Nepal – enquanto para a mãe de áries, de temperamento forte, um bom presente seria uma espada de samurai (!?). Mas, sob o aspecto musical deste dia família, podemos destacar canções que embalaram feito trilha sonora os anos dourados de nossas progenitoras, e que seriam ótimos presentes para uma mulher que sempre gritou para você ‘abaixar esta porcaria que nem parece música’ – deixemos as porradas do rock de lado, para não ter erro.

Entrando no clima da catedral Anglicana de Liverpool, que resolveu ignorar o cunho antirreligioso das músicas dos Beatles e concordou em badalar seus sinos no ritmo de Imagine, um CD da banda “mais popular que Jesus Cristo” é uma boa pedida para aquela mãe emotiva, que chora até hoje nos especiais da TV que relembram o assassinato do vocalista John Lennon. Existem diversas coletâneas que reúnem os clássicos Let it be, Help!, Hey Jude – na qual dá para ouvir nitidamente alguém falando ‘pega o cavaquinho’… Vale até a biografia de mais de mil páginas sobre a banda, fruto de uma década de pesquisa e relatos reunidos por Bob Spitz.

Para a mãe bicho-grilo, paz e amor, de cabelão, vá a um brechó e combine algum acessório bastante colorido com o álbum manifesto do movimento tropicalista, chamado Tropicália – ou Panis at Circenses. O disco foi eleito pela revista Rolling Stone do Brasil como o segundo melhor álbum brasileiro de todos os tempos, e reúne sucessos da época de revolução cultural nas vozes de Gal Costa, Os Mutantes, Nara Leão, Tom Zé… Além de Caetano Veloso e o querido ministro Gilberto Gil, que encabeçaram sua produção.

Para a mãe romântica, Elis Regina em “Romaria”, Vinícius de Moraes com sua poesia intercalada em “Pra viver um grande amor”, o vozerão de Tim Maia em Gostava tanto de você”. Para a mãe clássica, a famosíssima “Nocturne” de Chopin, a última melodia composta em vida por Mozart, intitulada “Lacrimosa”, e a melancólica “Moonlight Sonata”, de Bethoven. Para a mãe moderna, talvez um I pod de última geração com as músicas do último CD de Bob Dylan, Together trough life, que levou o cantor ao topo das paradas após anos de distância. Ou o jazz delicioso da jovem Regina Spektor, misturando-se aos frutos da união entre Amarante e o baterista dos Strokes, que formou a banda Little Joy – ah, a tecnologia facilitadora das miscelâneas musicais!

Ouça tudo aqui:playlist

De qualquer forma, o que importa é a intenção: homenageá-las, sejam elas do rock, do pagode, do pop ou sertanejo, mas o mais importante – todas são maravilhosas MÃES!

E fica um belo videozinho:

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05
maio
09

Protesto: Por uma Virada Cultural de 7 dias

Depois de um texto pré-Virada Cultural 2009, façamos o acompanhamento desta 5ª edição do evento, que reuniu 4 milhões de pessoas. Como não é possível se dividir em 800 para avaliar o número total de atrações, o Rock’n Roll Train se limita às experiências vivenciadas por seus integrantes, que foram mais do que suficientes para constatar verdades absolutas:

A Virada Cultural evoluiu sim desde sua primeira edição, em questões de infra-estrutura – os banheiros químicos estavam lá, como a prefeitura previu: sem filas, e insuportavelmente mau cheirosos – e policiamento – não houve nenhuma ocorrência grave durante as 24 horas. Proporcionalmente, cresce o interesse da população a cada ano, e é impossível abrigar tanta gente nas ruas estreitas do centro sem que haja tumulto. Os palcos da São João e da Pça da República, por exemplo, estavam localizados muito perto um do outro. Quando a coisa ficou feia – traduza para lotada – lá pela 1:30h da manhã, antes do show dos Velhas Virgens, o povão, que não cabia mais na pista, nem nos canteiros, nem em cima das árvores da República, começou a tomar as ruelas que davam acesso ao palco da São João. E os ônibus que transitavam ali, já que tais ruas sabe-se-lá-por-qual-motivo não foram interditadas, ficaram ilhados entre o mar de gente, virando camarote pra umas 20 pessoas que viram no teto dos veículos a oportunidade perfeita de ver o show em paz – até a chegada do spray de pimenta, é claro.

Interdição irresponsável no metrô: passageiros se misturam ao tumulto da Virada Cultural.

Interdição irresponsável no metrô: passageiros se misturam ao tumulto da Virada Cultural.

Ainda quanto ao transporte público, o sabe-se-lá-porquê II: a interdição do Metrô República por causa de obras na linha amarela – a da cratera, lembra? – obrigava os passageiros que iam tranquilos para suas casas, longe do povo insandecido da Virada a… mergulhar de cabeça nele. Como os trens não podiam fazer o trajeto por baixo da terra, os passageiros precisavam pegar um ônibus para fazer o trajeto Santa Cecília – Anhangabaú e depois embarcar novamente. Só não soa mais absurdo porque o serviço era gratuito. E o resultado foi mais trânsito, atrasos na Estação Anhangabaú, que chegou a ser fechada por causa da confusão, sem que os usuários fossem avisados. Por volta das 22:30h de sábado, então, quem desembarcou do ônibus ouviu rumores de que o metrô inteiro tinha parado, foi espremido feito lata de sardinha pela multidão que tentava abrir os portões à força e sofreu o empurra-empurra costumeiro de horários de pico, só que em pleno sábado de descanso.

No mundo ideal: transporte gratuito 24 horas, sem nem precisar falar do trajeto sem interdições. Facilitaria o escoamento do público, cansado de perambular, confortavelmente para os outros points culturais – a massa humana descontrolada também foi vista nos palcos de eletrônica, situados longe da muvuca do rock, e os resultados foram várias pessoas passando mal por causa do calor e do empurra-empurra.
No Brasil: pede pro sir Lula umas estalecas a mais e faz uma semana de evento! Vantagens: a física diz que 4 milhões de pessoas, quando distribuídos em maior espaço de tempo, ocupam área espacial bem menor; os rios e riachos de bebida – que mancharam as belas camisas do Serra e do Kassab, inclusive – seriam evitados, pois é possível beber até cair durante 24 horas, mas poucos teriam tal audácia ao longo de uma semana inteira; por fim, daria para aproveitar melhor as atrações, sem o ritmo frenético à base de café, açaí e guaraná que, por causa de uma noite mal dormida, rende uma semana inteira de olheiras e bocejos.

Nossa agenda 

Marcelo Camelo divulga seu CD solo mas contenta os fãs com duas canções do Los Hermanos.

Depois de uma soneca, um super lanche e a preparação de um figurino à prova das mudanças climáticas possíveis em São Paulo – regata e blusa de lã, guarda chuva e óculos de sol, filtro solar e cachecol – rumamos para o centro da cidade. Perdemos Joelho de Porco, mas tivemos sorte de assistir Marcelo Camelo. O barbudão apresentou o álbum “Sou”, bastante competente, para a platéia para sempre insandecida por Los Hermanos (fazer o quê?). Para agradar os fãs, Camelo atendeu aos pedidos do público e tocou duas músicas do conjunto: Morena e Além do que se vê – para introduzi-la, pediu desculpa aos fãs, pois nunca conseguiria cantá-la e tocá-la com o mesmo primor do grupo completo. Aí já viu… a última música do show foi regada a lágrimas em coro, fortes e emocionadas, quase que ecoando: voltem, Hermanos!

Migramos então para o palco do rock em busca dos restos de Camisa de Vênus, que já tinha terminado, então esperamos por Velhas Virgens. Um grupo de quatro pessoas tentando furar a multidão primeiro pela frente, depois pelos lados, sendo arrastado pelo fluxo de gente indo na mão e contra mão. Quando conseguimos, percebemos que não havia um lugar tranquilo na pista; em qualquer metro quadrado tinha gente mal educada se acotovelando, tentando passar por cima pra ver melhor, com o risco de sermos pisoteados a todo momento. Ouvimos os primeiros gritos de “Cu-ba na Jarra!” quando ainda tentávamos fugir daquele caos.

Thalma de Freitas e BNegão prestam bela homenagem a Tim Maia

Nos arrastamos para um mundo completamente diferente: na São João, quem esperava pelo show do Instituto em tributo ao Tim Maia entrou no clima de versos como /Abra a porta/e vai entrando/felicidade vai brilhar no mundo/ e respeitou as pessoas ao redor. As pessoas pediam até desculpas quando esbarravam umas nas outras! Como aquele era o palco principal, talvez a organização fosse maior, e um telão distante a três quarteirões democratizou as imagens do palco para os míopes e os baixinhos, junto a um conjunto de caixas de som que fazia uma distribuição digna do funk contagiante de Tim. Com direito a percussionista da Vai Vai, rappers (BNegão, que não fez feio interpretando a voz do cantor, e Kamau, que adicionou às canções raps de improviso que conquistaram a galera) e até atriz (Thalma de Freitas, filha do maestro Laércio de Freitas), foi o melhor show da noite.

Clique aqui e assista entrevista com Marcelo Camelo e Instituto na Virada Cultural.
(o vídeo está lá embaixo, ao final da matéria)
 
 Após pit stop em busca de comida decente e banheiro utilizável, surge o sol na manhã fria do centro da cidade, e tinha gente dormindo tranquila entre a pilha de lixo amontoado nos canteiros, nas calçadas e até mesmo na pista do palco do rock. Então, veio Matanza e seu rock descontraído com Vanguart logo em seguida: uma ótima forma de começar o domingo. Por fim, o show em clima de seita profética do Cordel do Fogo Encantado – já ouvi comparações com Teatro Mágico, mas preciso esclarecer que não há muita relação, exceto pelas declamações irritantes no meio das músicas, que quebram batidas gostosas, porém cansativas de maracatu.
E, por fim, o tão merecido descanso. Exaustivo? Mas já deixa saudades.
02
maio
09

Ah, a virada cultural…

 

Em um aquecimento para o evento transcedental de 24h a partir do pôr-do-sol de atrações bacanérrimas – ou nem tanto – aqui vão alguns devaneios.

Em tempos de gripe suína, o povão mexicano abandonou o time querido para fugir das multidões dos estádios e vestiu sua máscara anti-microorganismos das forças do mal. Na Terra da Garoa, o paulistano inteligente e avançado encheu a caixinha de remédios com a poderosa Aspirina espanta-suíno, enquanto Belo Horizonte decretou estado de emergência por uns espirros que nem chegaram ao Estado – mas vão chegar, a qualquer momento!

 

Ah, o espreme-espreme...

E a virada cultural? E este evento inacreditável, que mistura as mais diferentes identidades, ocultas nas grandes massas, que cantam e suam e bebem e vibram juntas? Mais grudadinhas do que na Estação da Sé às seis horas da tarde, respirando o mesmo ar ameaçador e sem ter como correr na ocorrência de um ‘atchim!’? Pois bem, meu caro amigo, se você pretende evitar esta ótima oportunidade de se divertir muito por pouco $$ por puro hipocondrismo ocasionado por pandemia norteamericana, azar o seu. Porque todo mundo estará lá:

 

Para os desencanados que gostam daquele centro meio abandonado meio restaurado (mas tipicamente paulista), não ligam de presenciar homens alcoolizados com calças arreadas pelos cantos mau cheirosos – a prefeitura até tentou evitar as “esquininhas do xixi” aumentando o número de banheiros químicos, vamos ver – e curte aquele simpático tio (também alcoolizado) que oferece uma cerveja a R$3,00, duas por R$5,00:
Tem o rock do obceno Velhas Virgens, o alternativês do barbudo Marcelo Camelo, Vanguart e seu Semáforo, CPM 22 com sua legião de emos-que-não-se-dizem-emos, um remember daquele chato que SEMPRE grita pra tocar Raul… e muito mais, tudo em palcos relativamente próximos um do outro – relativamente, viu? Prepare as solas do seu All Star, Conga ou Nike Shocks.

 

Pra você, azarado, que recebeu uma visita da tia do interior, que aperta suas buchechas e conta que você fazia xixi na cama para as suas namoradas, há salvação:
Leve-a para o baile da saudade do palco brega no Largo do Arouche, e torça para que ela encontre um tio do terno dourado que dance Wando, Beto Barbosa e Reginaldo Rossi //pausa: quanto ao vídeo, o suprassumo atingido no Paint!// e, o mais importante – que tenha uma sobrinha na mesma situação que fuja com você para o Cine Dom José, na mostra de zumbis que com certeza a fará agarrar sua mão a noite inteira.

 

Os boyzinhos de gel no cabelo podem curtir um ‘puntz puntz’ ao lado de menininhas de óculos escuro que dançarão freneticamente entre o palco da 15 de Novembro, tocando eletrônica em geral, e o Largo São Francisco, especial pra quem curte as raves coloridas e psicodélicas regadas a psy trance.

 

Pras famílias unidas e felizes: levem os filhos pequenos e os adolescentes rebeldes, junto com a sogra, os priminhos remelentos, a avó que quase não ouve – o esquema de caixa de sons costuma ser eficiente, se aliado à aparelhos de surdez! -, o cachorro e o agregado fila-bóia para ouvir piano na Praça Dom José Gaspar, instrumentais variados na Conselheiro Crispiniano, assistir espetáculos de dança no Anhangabaú ou curtir a boa MPB de Maria Rita (como é a última atração de domingo do Palco São João, o povo pinguço do xixi já deve ter dispersado até lá!).

 

Para os malinhas que passam mal só ao pensar em multidões desorganizadas e têm medo de cair no empurra-empurra bem na hora que a pista se transformar em um bate-cabeça assassino, porque “foi isso que minha mamãe me disse antes de eu sair de casa”, existem alternativas:
Ótima oportunidade pra conhecer o belíssimo Theatro Municipal e os diversos centros culturais e museus da cidade, que promovem visitas monitoradas, saraus, feiras de livros, concertos, e por aí vai.  E para aquele amigo de óculos de massa meio introspectivo, que tem como ápice do sábado à noite assistir sozinho na sala escura dois documentários europeus de 4 horas cada, um em seguida do outro:
Cinemas famosos na cena cult escolheram a dedo uma programação que envolve o Festival Internacional de Curtas, o Festival do Minuto, a Mostra Internacional de Cinema, e o tradicional noitão do Belas Artes, que une comilância ao ritual cinematográfico por preço acessível (R$20,00 inteira, R$10 a meia).

 

Estas foram minhas dicas, mas consulte a programação e escolha você mesmo a sua maratona. O leque de opções é grande, e vale de tudo para aproveitar uma das poucas datas do ano em que o paulistano pode aproveitar de maneira saudável – eu espero! – a abundância de manifestações culturais, sem que haja o abismo social costumeiro, que nos divide por letras do alfabeto e cria barreiras contra a interação entre seres humanos que, no fundo, nascem e morrem iguais.

01
maio
09

Dica da locadora – especial Quentin Tarantino

Quem não conhece Quentin Tarantino? Em uma curta carreira como diretor, o também ator e roteirista conquistou papel notável na história do cinema por causa de sua participação marcante e original. Tarantino conquistou seu lugar na lista dos melhores filmes de todos os tempos divulgada pela Revista Empire com o segundo longa que dirigiu na vida. Seus filmes falam do submundo mesclando muito bem humor e violência (muita violência, diga-se de passagem!), têm narrativas não-lineares que foram conduzidas exemplarmente, e um tempero especial: a trilha sonora. Suas músicas merecem tanta atenção que, em 1996, um CD chamado Tarantino Connection foi lançado pela Universal, envolvendo a trilha sonora dos filmes que o cineasta escreveu e dirigiu até ali. Se é assim, dedico as próximas linhas às músicas que embalaram feito pluma cenas de ação e agressividade em sua melhor forma.

Obs: Clique nos ‘listens’ para acompanhar as tilhas sonoras ao longo do texto – fica mais fácil entender!

 

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Cães de Aluguel (1992)

 O primeiro experimento de Tarantino como diretor inovou em muitos quesitos. Modernizou não só as características cinematográficas que dariam corpo à revolução dos filmes independentes da década de 90, mas também a seleção de músicas que embalaria filmes sanguinários dali em diante.
Isso porque, na cena de tortura ao policial, por exemplo, graças à mente atormentada – que não é um defeito, fique claro! – do diretor, o clima chega a ser de comédia, de tão absurda que é a dancinha do torturador embalado pelo som da banda escocesa Stealers Wheel. Com toques de humor negro e uma linha quase invisível entre o violento e o cômico, a trilha sonora é a mais animada de seus filmes, contando com o primeiro hit de George Baker, “Little Green Bag”, e o agitado soul de Joe Tex. Merece destaque também o romantismo inocente de Sandy Rogers, que quebra o clima essencialmente black do apanhado.
Tarantino também optou por incluir diálogos do filme no CD da trilha sonora, seja ocupando faixas inteiras ou somente para introduzir as canções. Ele não foi o primeiro a realizar este feito, mas seguiu tal padrão em todas as suas obras.
Vale lembrar que a musicalidade está incluída na própria trama de Cães de Aluguel: no início do filme, acompanhamos uma discussão entre os criminosos sobre o significado da música Like a Virgin, de Madonna. Simplesmente cômico!

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Pulp Fiction (1994)

 Talvez pudesse entrar para a lista de trilhas mais gostosas de ouvir de todos os tempos, junto com o filme. Se não é a melhor, sem dúvidas é a mais famosa: por causa de Pulp Fiction que o nome de Dick Dale – o rei da surf guitar de quase 70 anos – se tornou conhecido mundialmente, com a música de abertura “Miserlou”.
A trilha mistura de tudo um pouco: a rapidez e o despojamento da surf music dá espaço para o gigante do rock Chuck Berry, que vem seguido pelo soul de Al Green, combinando com a bela “Lonesome Town”, de Ricky Nelson. Uma seleção leve e descontraída que tira o peso sanguinário das costas do longa.
Como pano de fundo dos encontros repletos de sensualidade de Uma Thurman e John Travolta (ou melhor, de Vincent com a mulher do chefe), há o quase hino “Girl, you’ll be a woman soon” {*PS: o vídeo está com uma dublagem bizarra, mas vale a intenção!). Só a chatinha “Jungle Boogie” que poderia ficar de fora, muito repetitiva. 
Com o CD unindo ainda alguns dos melhores diálogos do filme, com um time como Samuel L. Jackson, John Travolta, Uma Thurman e Bruce Willis, ao melhor que a música tem a oferecer, é para extasiar qualquer fã que se preze, seja ele de música ou de cinema.

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  Kill Bill (2003) e Kill Bill II (2004)

De tão grande que ficou a saga da noiva vingadora interpretada por Uma Thurman, Kill Bill foi dividido em dois. Assim, fomos abençoados com boa música cinematográfica em dobro. As duas trilhas soam como se viessem do túnel do tempo, mas isso se torna um fator positivo nas mãos de Tarantino, que já declarou que, desde as filmagens, já pensa minuciosamente nas músicas que se encaixariam em cada sequência com perfeição. As cenas ganham então identidade peculiar, se relacionando intimamente com as canções: basta ver a tradução de Bang Bang, interpretada por Nancy Sinatra, e comparar com a cena em que Bill quase mata sua noiva.
Quando comparada à trilha de Pulp Fiction, pode-se dizer que a de Kill Bill resgata temáticas famosas em seriados de TV e filmes antigos, sendo menos um apanhado de sons do gosto do diretor e mais uma trilha pensada cinematograficamente – talvez pela presença maciça de instrumentais.
“Battle without Honor or Humanty” traz ao trailler do filme o clima de máfia japonesa, enquanto o gigante Bernard Herrmann – que tem no currículo a música de nada menos que Psicose, Cidadão Kane e Moby Dick, entre outros – é resgatado com seu poderoso assobio que já virou até música dance-pop. As flautas orientais em “The Lonely Shepherd” trazem um clima meio hippie da praça da república, mas o clima é quebrado pelos raps de RZA, compostos especialmente para o primeiro longa.
Quando nos deparamos com a segunda trilha, que traz Johnny Cash, a cantora soul Shivaree e o italiano Ennio Morricone – que compôs a trilha de Os Intocáveis – não há dúvidas de que Kill Bill é uma obra prima em termos musicais.

29
abr
09

A graça e a ousadia de Yann Tiersen

 

 Sabe quando uma trilha sonora cai como luva sobre a história de um filme? Pois bem… no caso de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, a história é que caiu perfeitamente bem na música de Yann Tiersen. O diretor do filme, Jean-Pierre Jeuneut, ao escutar um CD do multi-instrumentista no carro de um amigo, resolveu conhecer mais de seu trabalho e, após encantamento inevitável, comprou os direitos autorais de grande parte de suas músicas. Assim nasceu a trilha sonora que dá vida à Amélie que conhecemos, composta apenas por músicas instrumentais, tipicamente francesas e melancólicas em sua maioria.

Dois anos depois, em 2003, foi a vez dos produtores de Adeus Lênin! descobrirem o acerto em usar o minimalismo de Tiersen como pano de fundo da queda do muro de Berlim e suas consequências, retratadas pelo longa.

Mas o que raios tem a ver tais filmes europeus e o tal do Tiersen com o Rock and roll train? Pois bem! Acontece que o francês, além de merecer seu espaço por aqui por ser um marco da música – com apenas 38 anos toca de maneira exemplar piano, violino e acordeão, possui 6 discos de estúdio e 3 ao vivo – também faz tentativas bem vindas ao mundo do rock. Seu último disco, On Tour, trouxe velhas conhecidas instrumentais, como La Valse D’Amélie, em versões totalmente reinventadas, substituindo o teclar calmo de um piano pelas distorções de guitarras viajantes. Duvida? É só comparar:

 


O vídeo foi gravado por alguém da platéia do show que Tiersen fez no
Sesc Vila Mariana, em São Paulo, nos dias 4 e 5 de abril de 2007.
Repare que o início da música é teclado no chão, em um piano de brinquedo! Inventivo?

 

Por questões de gosto, prefiro suas músicas clássicas e tradicionais, com arranjos elaborados que mesclam vários instrumentos em uma só canção. O compositor pródigo ainda é capaz de surpreender com suas incursões como cantor, que não deixam nada a desejar. Monochrome, que conta com sua voz, é sem dúvidas uma música que beira a perfeição quanto à melodia e aos arranjos, que elevam o emocional de quem ouve à décima potência. Merecem destaque também a dramática Summer 78 (da trilha de Adeus Lênin!, com Claire Pichet), a esperançosa J’y Suis Jamais Alle e a turbulenta Sur Le Fil (estas últimas de Amélie).

Para conhecer estas e outras canções, é só clicar:listen1

 

E para não deixar dúvidas da genialidade do músico, fica o vídeo de uma apresentação ao vivo na qual Yann Tiersen, tocando Rue des Cascades, tecla o piano com uma mão ao mesmo tempo em que maneja o acordeão com a outra.

 

13
abr
09

Punk rock ou Punk poser?

 

Confira aqui um segundo post sobre punks, sobre jive, e sobre os comentários no final da página

Antes de mais nada, um aviso: esta nota não é imparcial. Não pretende ser portadora da mais pura verdade, mas sim de uma mera demonstração de opinião.

Em visita (ou badalação, como preferir) ao Jive, balada moderninha e ‘alternativa’ em noite intitulada That’s rock!, que trazia o pocket show da banda Invasores de cérebros, me peguei pensando: onde raios foram parar os punks?

Primeiro, vamos esclarecer algumas coisas:
A casa, com decoração colorida e psicodélica, é famosa por seus frequentadores exóticos e seu som característico, que mistura “brisa e beats latinos” com “especiarias musicais de terras remotas”, como descrito na comunidade do clube.
A banda Invasores, por sua vez, é veterana do punk rock nacional desde 1988, ridiculariza o famoso ‘sistema’ e vai contra ‘modismos’ em prol da liberdade de expressão, mas sem se agarrar a objetivos concretos, exceto o de divulgar sua música.

Pois bem, está provado que a banda destoa do ambiente nos princípios mais impregnados do cenário punk: casas sujas, escondidas e ‘fora da moda’, que raramente têm palco adequado e oferecem entrada bem abaixo dos R$20,00 do Jive seriam mais adequadas, sem dúvida. Agora, a atração especial fica por parte do público.

São Paulo Fashion Week lançou a tendência das sandálias gladiadorEntre as menininhas, os princípios do faça-você-mesmo e da fuga dos padrões caem por terra nos pés de rockeiras muito bem produzidas calçando sandálias estilo gladiador – que, por acaso, estão em alta nas passarelas tão criticadas pelo movimento por seu glamour e consumismo desenfreado.

Já aquelas que ainda não abandonaram o all star e a calça jeans pulam desenfreadamente e se fazem de punks sem conhecer ao menos uma música – exceto pelos hits de Sex Pistols e Ramones, é claro.

 

Os meninos, com cervejas de R$5,00 impregnadas do capitalismo maldito em mãos, abandonaram os moicanos e as roupas rasgadas cobertas por jaqueta de couro e tarrachinhas. Agora, ficou tudo mais simples: cabeça raspada e camiseta a la Galeria do Rock – mais hard core.

Quando o show começa, todo mundo se mistura em rodinhas até que pacíficas, e, as porradas da bateria em músicas rapidíssimas, tornam impossível para qualquer ouvido humano perceber do que se tratam as letras. Então, todo aquele engajamento contracultural e politizado do punk rock vira uma salada de modismos e perde o sentido. Queria deixar claro que admiro a mistura de estilos, e não há nada mais natural do que a transformação dos grupos e tribos ao longo do tempo, acompanhando as mudanças da sociedade em si. Só queria alertar para a discrepância do discurso de muitos punks que se intitulam os verdadeiros, principalmente por causa de suas consequências.

A violência entre grupos que enfrentam diferenças de valores ou de vestimentas se faz presente tanto nos subúrbios como nos centros, tendo como motivação a defesa de uma ideologia que, muitas vezes, nem seus próprios membros conhecem. Anarcopunks brigam com Carecas, que por sua vez brigam com Hardcores, que brigam com Emocores, que talvez não briguem com ninguém. O fato é que o movimento nascido no berço do anti-nazismo, amor livre e liberdade individual, criou seus subgêneros e deixou, por algum motivo, de respeitar esta última. O próprio vocalista da Invasores de Cérebros, em entrevista ao Portal do Rock, criticou o movimento punk por ter perdido sua agressividade: “Falta aquela rebeldia [..], aquela coisa de se rasgar com uma faca no palco. Acho que falta este fator do perigo. As pessoas primam muito pela técnica hoje em dia e se esquecem deste lado da loucura que representa o rock”.

Ok, Ariel, talvez falte atitude não só no punk, mas no rock em geral. Uma balada paulistana que toque na mesma noite Led Zeppelin, Garotos Podres e Avril Lavigne (?!) pausa: felizmente, deixei o Jive antes de presenciar tal heresia, mas fui informada do acontecimento por testemunha ocular –  mostra como a identidade do gênero foi pasteurizada, sendo qualquer poser capaz de se nomear qualquer coisa após breve pesquisa na Wikipedia. Entretanto, acho que em um mundo repleto por tantos problemas, denunciados inclusive pela sua banda, melhor escolher os Ramones cantando I believe in miracles do que o Invasores de Cérebros gritando música homônima, que considera o verdadeiro punk fruto de violência entre gangues – confira letra aqui.
Viva a diversidade cultural, de qualquer forma.

26
mar
09

just a fest 3 – Enfim, Radiohead!


Miscelânea de sensações

Tal título não critica a qualidade das apresentações que antecederam o Radiohead no festival, de forma alguma. Digo ‘enfim’ Radiohead porque, após 21 anos de carreira desde a primeira formação, 7 CDs de estúdio e incontáveis boatos de uma vinda ao Brasil que não ocorrera, os fãs alucinados de Radiohead puderam se deliciar com mais de duas horas do melhor do indie atual.

York brada seus sentimentos durante espetáculo da banda inglesa, que reuniu 30 mil fanáticos em SP

Yorke brada seus sentimentos durante espetáculo da banda inglesa, que reuniu 30 mil fanáticos em SP

Ninguém tem dúvidas de que Radiohead é meio ame ou odeie: afinal, letras elaboradas e difíceis de acompanhar na voz do estranhíssimo Thom Yorke tendem a conquistar aqueles que tem, pelo menos, um pézinho no estilo de vida Creep. Porém, não precisa ser muito freak para admitir que o show ocorrido no último domingo, em São Paulo, entrou para a história. Primeiro porque, no país do samba e futebol, uma banda gringa que arranque da voz de 30 mil pessoas um único som, que não se relacione com axé nem micareta, merece reconhecimento. Depois, quem esteve lá sabe muito bem: a energia daqueles caras, que não só compõem e interpretam, mas acima de tudo mergulham na própria música, é capaz de deixar toda uma multidão em êxtase, catarse, e em profundo silêncio quase que ao mesmo tempo.

Festivais que misturam diferentes sons geralmente são marcados pela heterogeneidade do público – cada um está ali para ver uma atração em especial. Mas no dia 22, mesmo que nem todos fossem fanáticos com as letras na ponta da língua, percebíamos total imersão da grande massa no show, e uma sintonia com a banda fora do comum // é importante dizer que, pelo que sei, no Rio de Janeiro não foi assim; a Apoteose parecia vazia e em vários pontos da multidão haviam grupos de amigos batendo papo.// Sintonia esta de mão dupla, pois da mesma forma que o povão acompanhava o Radiohead lá no palco, Thom Yorke acompanhou o povão, quando este, após o término de Paranoid Android, voltou a cantar em coro o refrão. Sensação indescritível, ouve aí:

 

Popload – Lúcio Ribeiro
O link está no final do post, é só clicar em ‘abrir’ que carrega
rapidinho, e além do improviso de Paranoid, vem
Fake Plastic Trees ao vivo de brinde.

 

O clima de culto da apresentação foi tanto que quando vendedores furavam a multidão gritando ‘água, água!’ com seu isopor enorme encobrindo a visão, o povo que estava de pé há horas grudadinho naquele calor nem se interessava, e ainda praguejava ‘xius’ e ‘Cala a boca!’.


O set list

Foi levemente diferente do Rio, sim. Injusto? Talvez, por pura questão de gosto. Porém, na geração virtual onde tudo sabemos quase antes que aconteça, o público de São Paulo teve belas surpresas quando os primeiros acordes de Fake Plastic Trees foram arranhados, tendo conhecimento que esta ficou de fora da versão carioca. Ou quando os arranjos reformados de Talk Show Host – que fez parte da trilha sonora do Romeu e Julieta de 1996 – arrancou um ‘nooossa!’ dos saudosos fãs.

 

Em algum lugar do mundo na mesma turnê,
aí está a versão moderna, mais pesada e com alguns incrementos:

 

Por opinião particular, fizeram falta No surprises, Thinking about you e 2+2=5. Os ingleses se concentraram nas músicas do último álbum, In Rainbows, dando apoio a uma antiga declaração do baterista Phill Selway a respeito da turnê de lançamento do disco Pablo Honey: para ele, tocar músicas que a banda gravou há mais de dois anos era como estar “preso no tempo”.

De qualquer forma, a apresentação foi bastante democrática, contando com 26 músicas do melhor que Radiohead tem a oferecer. Para o espectador, sem dúvida nenhuma, foi desvendado um novo mundo, no qual “two and two always makes up five”.

 

Para quem não assistiu no Multishow a entrevista do
vocalista Thom Yorke e do guitarrista Ed O’Brien, é só clicar
aqui.

Nela, eles explicam como foi a escolha das luminárias do palco (que mudavam de cor ao longo do show, seguindo os tons do arco íris devido ao nome do último CD), comentam sobre a relação reservada com a imprensa e as frases em português incluidas aleatoriamente no meio da apresentação.