Arquivo do Autor para Alessandra Marcondes

21
set
09

Jive: a segunda chance

Era uma vez… uma garota que visitou o Jive em uma noite de sábado. Acontece que ela não gostou do que viu e do que ouviu (uma banda ruim chamada Invasores de Cérebros), resolveu dar a sua opinião, e vieram uns mocinhos muito bem educados ofendê-la. Apelar pra mãe, pro credo, pra classe, pra cor. Afinal, ela é que foi injusta deixando bem claro que só se tratava de uma inocente opinião – justo foram eles com seus belíssimos comentários.
(pra entender a história, leia você mesmo)

Beleza! Ela foi contra seus instintos mais profundos, lutou contra o bom senso e voltou à tal casa da Alameda Barros. Então aqui vai a resposta a todo o amor e carinho que recebeu dos PunK ZL ViDaLoKaMaNo – ou coisa parecida.
Neste sábado, dia 19 de setembro, o clube estava no mesmo lugar. A cerveja subiu um real (R$6,00 por latinha) e os frequentadores também estavam mudados – menos hardcore, mais caras parecendo uma versão mal encarada do Johnny Cash. A discotecagem foi meio ruim, o povo mais se importava pra imagem e pro carão do que pra música em si… E quando eu tava me preparando para ir embora, eis que surge em cena uns moços chamados Big Nitrons.

Adivinha só? Eles eram geniais. Isto mesmo, FANTÁSTICOS. Eles não jogavam cerveja na careca, eles tomavam a cerveja e, melhor ainda – davam pra galera beber. Mas antes que os carecas achem que isso já é o bastante pra conquistar o público, já vou avisando: estes moços tocam música de verdade. Mais uma vez não fui capaz de entender uma palavra da letra – e aí, povo do Jive, vocês não vão consertar isso nunca? – mas nem precisava, porque o som era BOM. Pela energia da pista, deu pra perceber que não fui a única que gostou. Uma mistura muito doida de punk rock, country, ska, blues, que dá um ‘pervert rock’n roll’ contagiante, não deixou uma única criatura parada, e desimpregnou aquela nhaca que grudou no meu corpo a respeito do punk rock.

Os Big Nitrons tavam mais preocupados em fazer música boa e se divertir junto com quem estava ali. Pra eles pouco importam os rótulos e as definições, se é atitude que falta ou não no rock’n roll. E é exatamente isso que os faz ter mais atitude do que vocês, Ariel e sua trupe. Levando a vida numa boa, os caras já conseguiram fazer até turnê no Chile, sendo que se juntaram só em 2005. Talvez é isso que falte no punk rock em geral: o desprendimento, a imaturidade, a juventude. O Invasores de Cérebros é mais experiente? Pra mim soou datado, até idoso, enquanto os Big Nitrons ganharam uma fã. Mas no fundo, tanto faz… jornalista vive no limbo mesmo. Acontece que depois de aceitar as críticas e lavar minha boca com água, sabão e detergente, eu não só posso – como vou – falar mal do tal temido, respeitado e imbecil ‘movimento’. Afinal, se o presidente do senado não conseguiu calar a imprensa, o que são estes infelizes que usam da violência para conseguir o que querem?

E a lição de hoje é: faça amor, felicidade, música boa e bebedeiras. Cresça e vire gente, porque quem se corta em palco é psicopata, e quem corta os outros é assassino. Quem fala muito pouco faz, e se vocês aplicassem tanta energia em algo útil, o mundo seria um lugar mais feliz.
Obrigada, Big Nitrons, por me mostrar que punks e não punks podem ser felizes e se respeitar.
E eu agradeço também a quem souber ser punk sem ser idiota, e quiser manter uma discussão saudável a respeito disso tudo.

16
jul
09

dica da locadora – Moulin Rouge

Para aqueles que não curtem muito musicais, a dica:  deixe isso um pouco de lado quando falar de Moulin Rouge. Não indico que o assista, porque gosto é gosto, e tem gente que realmente sente raiva daquele povo feliz que desata a cantar do nada, com a aparição não anunciada de atores secundários que não tem sentido nenhum na trama a não ser por compor o coro musical. Que seja. Gostem ou não do gênero, há de se admitir que a trilha sonora do longa é magnífica, uma releitura de vários clássicos do pop e do rock em versão moderna que cai como uma luva no andamento do romance.

Lil' Kim, Pink, Mya e Cristina Aguilera fazem parte da trilha com "Lady Marmalade".

Em musicais, a trilha sonora deixa de ser mero complemento e se torna personagem principal. Sua letra compõe as falas dos atores, a melodia dá vida ao sentimento, e é ela que constrói a aura pretendida pelo diretor. Por isso, a maioria dos musicais tem canções compostas especialmente para a sua produção. Entretanto, o caminho escolhido por Craig Armstrong e Marius De Vries (responsáveis pela trilha) é muito mais cuidadoso:  reformar músicas já famosas entre o público e agregá-las à trama, sem que desviem a atenção do espectador, é trabalho de gênio.

Confira como ficou a versão de The Show Must Go On, original do Queen:

Você vai entender do que eu estou falando quando ouvir Roxanne, famoso hit do Police com mais de 30 anos de idade, em ritmo de tango vestido com a sensualidade de um cíume brutal. Ou quando vir a cena cômica do cafetão gordo vestindo véu e grinalda interpretando Like a Virgin (Madonna) junto do horrível duque.
Nicole Kidman canta Diamonds are a Girl’s Best Friend, que já esteve na voz de Marlyn Monroe em Gentleman Prefer Blondes, e o toque masculino fica por conta de Children of the Revolution, do Bono (U2). No meio de outras canções, há espaço até para trechos de Smells like Teen Spirit (Nirvana), We can be Heroes (David Bowie) e a famooosa “and I will always love you” (Whitney Houston). Mistura e tanto, não?

Moulin Rouge é acima de tudo, uma história (trágica) de amor. Altamente indicado para românticos, admiradores de história (o cabaret Moulin Rouge é um ponto turístico obrigatório para quem vai a Paris, e o personagem Toulouse-Latrec é um famoso pintor que viveu na época) e de reinvenções musicais. Cenas impecáveis de dança energizante só complementam a atuação harmoniosa de Nicole Kidman e Ewan McGregor, mas se o quesito é trilha sonora, não há como cogitar não ouvir.

Aí vai uma  amostra:PLAY

30
jun
09

The Gossip e o poder feminino

Há dez anos formado, mas super popular há não tanto tempo assim, o trio norte-americano Gossip é uma banda que tem a energia das pistas, a simplicidade do punk, a popularidade do hype e a atitude, ah, a atituuude de Beth Ditto. Como a mistura de uma Amy Winehouse com Preta Gil, conheça a vocalista do Gossip:

Lésbica declarada, não se depila nem usa desodorante, não tem vergonha de seu peso (e de mais nada, me arrisco a dizer), vive cuspindo xingamentos ao governo, que não aceita o casamento gay, às lojas de roupas, que dificilmente projetam peças para pequenas moças de 95 quilos como ela, afirma já ter comido esquilos no Arkansas e provocou reações (positivas, negativas, vai saber) ao posar para a capa da revista New Musical Express deste jeito aqui:

Beth não é gostosa feito Shirley Manson (Garbage), mas despontou na seleção das mais sexys do ano da NME, e ganhou o ouro pela mesma revista na lista das pessoas mais fantásticas do rock. Oh God, o mundo está perdido? Não! O mundo agora é dos feinhos e, pasmem, das mulheres!! Madonna está aí para substituir o posto de estrela mais polêmica-famosa-excepcional de todos os tempos, agora que Michael Jackson finalmente descansa em paz, e cada vez mais fenômenos femininos como Susan Boyle darão o ar de sua graça. Duvida?

Ouça Gossip aquiPLAY

Na realidade, não importa. No quesito musical, digo a você que Gossip é muito bom, seja para meninos ou meninas, feinhos ou gatões. Um ritmo frenético a la Arctic Monkeys é lembrado em guitarras cheias de energia, com toques de soul, um swing que provoca espasmos involuntários no corpo, e nas românticas (Coal to Diamonds e Are you That Somebody?) é possível notar que a dona da voz gritada e esganiçada também tem coração. Com certeza você já ouviu nas pistas mais moderninhas o hit “Standing in the Way of Control”. É contagiante. É inovador. É rock, meu bem.

 

Ouça também…

Mallu Magalhães - com seu leãozinho na capa, seus tchubarubas, sua voz de neném, o folk, o namoro com o barbudo, o banjo. Presencie o nascimento da menina no rock, sem aquele preconceito de quem não conseguiu fazer música a vida inteira e, no fundo, inveja o sucesso da pobre coitada. 
Definição: uma gracinha
Indicadas: You know you’ve got, Town of Rock’n Roll, Vanguart

 

Garbage - a banda que, no momento certo – e com o bateirista certo (Butch Vig produziu CDs de Smashing Pumpkins, U2 e… aquele tal de Neverminds, do Nirvana), resolveu misturar o grunge com o eletrônico para dar vida a temas como a sexualidade, as drogas, o amor, a paranóia. De letras pessoais com as quais a mulherada se identifica e muito, já arrebatou disco de platina e a participação de Dave Ghrol em “Bad Boyfriend” – precisa de mais alguma coisa para ocupar o topo dos hinos femininos?
Definição: garotos não prestam
Indicadas: Boys Wanna Fight, Cherry Lips, Why don’t you Come Over

 

Ladytron - o grupo tem duas vocais femininas e vestiu seu rock de electro, sua eletrônica de rock – sem vergonha. Eles também adoram o Brasil (o bateirista/tecladista/produtor da banda, Daniel Hunt, namora com uma brasileira e fez turnê abrindo os shows do Cansei de Ser Sexy), são o resultado da globalização em sua junção de dois ingleses com uma escocesa e uma búlgara, e tiveram seus hits empolgando desfiles de moda e comerciais da Levi’s. Definição: dance, dance, dance!
Indicadas: Destroy everything you touch, Playgirl, Sugar.

 

Pato Fua banda brasileira baseou seu nome na tirinha do Garfield, manteve seu visual esquisito intacto mesmo após o sucesso tão temido pelos fãs esquisitos (hit usado em novela global e topo das paradas na MTV). Mistura como ninguém a suavidade da voz de Fernanda Takai com experimentalismos futuristas e regressões ao tropicalismo (como no cover de “Ando meio Desligado”). Letras românticas e incompreendidas com um bom instrumental.
Definição: ah, me abraça, vai
Indicadas: Estudar pra quê?,  Uh uh uh La la la Yeah Yeah, Eu.


Ouça todas elas aqui 
PLAY

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04
jun
09

dica da locadora – C.R.A.Z.Y – Loucos de Amor

Assisti ao filme C.R.A.Z.Y – Loucos de Amor há um bom tempo, pra ser exata, há uns anos atrás. Lançado no Canadá em 2005, o longa demorou para chegar no Brasil e, quando chegou, ficou pouquíssimo tempo em cartaz, sem grande divulgação. Até nas locadoras é difícil encontrá-lo. Mas, para quem aprecia a união bom filme+boa música, aconselho: peça a colaboração dos seus pais, da vovó, da vizinha e do agregado para juntar a fortuna cobrada para a locação em videolocadoras cults e assista CRAZY o mais rápido possível!!

Na ficha técnica do filme o nome de David Bowie figura como o responsável pela música. Você pode imaginar no que deu. A trilha sonora vira atriz coadjuvante, e se relaciona intimamente com a trama: a trajetória do protagonista Zac ao longo dos anos 60, 70 e 80 é brilhantemente pontuada por canções escolhidas a dedo. O country de Patsy Cline na companhia do rei Elvis Presley representam a década de 60, enquanto Pink Floyd faz jus à de 70 com Shine on You Crazy Diamond e The Great Gig in the Sky, e o desfecho, nos anos 80, se dá ao som de The Cure. Tem como melhorar?

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Os dramas de um adolescente que se descobre homossexual em uma família conservadora e cristã dão espaço a uma abordagem leve e bem humorada, que incorpora os sonhos e viagens de Zac pra dar um colorido psicodélico aos acontecimentos. A passagem seguinte resume bem o espírito do filme: os atritos com o pai são embalados por Pink Floyd e, logo em seguida, a imaginação fértil do menino rende a cena impagável de um coro de igreja cantando Sympathy for the Devil, dos Rolling Stones.


PS: peço desculpa pelos diálogos dublados em espanhol…

A trilha também conta com o cantor francês meio brega – mas de passagem marcante no mundo cinematográfico – Charles Aznavour e com a magnificência de Jefferson Airplane. O próprio David Bowie encarna na pele de Zac – ou melhor, vice-e-versa – em uma interpretação doída de Space Oddity, com direito a cara pintada e tudo. Preste atenção na parede do quarto do menino, mostrada na mesma cena, e compare com a capa do famoso Dark Side of The Moon

Ainda resta alguma dúvida sobre a íntima relação estabelecida pelo longa com o rock de qualidade?

25
mai
09

dica de segunda – Placebo

Pode chamar de glam rock ou de indie, de gay ou esquisitão. Placebo é a banda que segue o que há de melhor no estilo deprê: sua originalidade é capaz de fisgar tanto o povo que se veste de preto naquele baita dia de sol, quanto os reles alternativex que estão a fim de sofrer aquela fase ‘ninguém me compreende’ com uma trilha sonora (muito) melhor do que o repertório emohistérico de garotos de chapinha no cabelo. A diferença talvez se faça perceber pela experiência dos integrantes na arte de sofrer; afinal, uma coisa é choramingar pelos problemas da adolescência, completamente diferente é ter mais de 30 anos nas costas e continuar fazendo música de qualidade sobre o mesmo-de-sempre do mundo do rock - drogas, sexo e bebedeiras.

O baterista novo Steve Forrest ao lado dos velhos intergantes Brian Molko e Stefan Olsdal.

O baterista novo Steve Forrest ao lado dos velhos intergantes Brian Molko e Stefan Olsdal.

Pois bem, para os já fãs de Placebo, um alerta: após intervalo de dois anos sem gravar, o novo CD lançado em futuro próximo se chama “Battle for the Sun”, para combinar com a atual fase positiva do grupo. Ãnh? Isso mesmo, em entrevista, o vocalista Brian Molko – viciado, andrógino, bissexual, filho de pai banqueiro que infernizou sua escolha pela faculdade de teatro – disse: “Nós fizemos um disco sobre escolher a vida, escolher viver, dar um passo além da escuridão e em direção à luz”. Como será possível Placebo, que carrega em sua voz e seus arranjos todas as dores que existem na humanidade, se metamorfosear para algo que soe positivo? Pois bem, a boa notícia é que não mudou TANTO assim… Em “For What It’s Worth”, as reclamações continuam:

No one cares when you’re down in the gutter/Got no friends, got no lover
{Ninguém se importa quanto você está na sarjeta/Não tenho amigos, não tenho amor}

A boa notícia é que a musicalidade da banda não decaiu após a saída de Steve Hewitt, que ocupava a bateria desde 1997, mas foi substituído por Steve Forrest em 2007 – ao que parece, Hewitt não estava pronto para entrar na etapa ‘rumo ao sol’ da banda. Pausa: o visual de Forrest combina muito mais com algum conjunto do tipo Blink 182. Destoa também de Molko e de Stefan Olsdal por sua idade: só 22 aninhos. Mas para aqueles que ainda não tiveram a sorte imensa de ouvir Placebo além da essencial “Every you Every me” – que embalou o filme Segundas Intenções – indico o seguinte repertório:

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Obs: “Without you I’m nothing” conta com a participação de David Bowie. A banda abriu diversos shows do cantor, símbolo do glam rock, e foi convidada por ele para o show/festa em comemoração aos seus 50 anos.
A voz feminina em “Meds” é de Alison “VV” Mosshart, da banda The Kills.
“I feel you” é originalmente do Depeche Mode; a versão do Placebo deu ar sexy e contagiante para a música da década de 80.
“Protège Moi” é a versão francesa da música “Protect me from what I want”; o vocalista Brian Molko é fluente em francês.




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